GERAL

Prevent gastou R$ 4,8 mi com medicamentos do 'kit covid'
Dados entregues pela operadora à CPI apontam que foram comprados quase 2 milhões de comprimidos de entre março de 2020 e maio deste ano

Planilhas de compras da rede Prevent Senior, em posse da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado, apontam que a operadora de saúde gastou R$ 4,8 milhões durante a pandemia com medicamentos do chamado "kit covid". Ao todo, foram adquiridos 1,98 milhão de comprimidos de hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, que tem sua ineficácia comprovada contra a covid-19. A empresa afirma que as compras foram feitas por "prevenção".

Médicos que trabalharam na operadora denunciaram uma prescrição indiscriminada do "kit covid" para associados da Prevent Senior. Sacolas fechadas com o coquetel de drogas eram enviadas até mesmo para quem nem sequer havia feito o teste para a doença. Um dossiê entregue à CPI aponta ainda que os profissionais de saúde eram obrigados a receitar os medicamentos, caso contrário seriam demitidos, e que pacientes da rede foram tratados com esses remédios sem saber. Além da CPI, a rede também é investigada pelo Ministério Público de São Paulo.

O grupo também acusa a operadora de subnotificar casos de covid, fraudar atestados de óbitos, como nos casos da mãe do empresário Luciano Hang, Regina Hang, e do toxicologista Anthony Wong, e de firmar um pacto com o governo federal e com o "gabinete paralelo" para livrar a empresa de críticas e testar o "tratamento precoce".

Do total gasto com hidroxicloroquina e azitromicina durante a pandemia, 75% do valor foi desembolsado entre março e maio do ano passado. Os meses coincidem com o período em que a Prevent Senior fez um estudo para testar a eficácia da hidroxicloroquina associada à azitromicina no tratamento da covid-19. Na época, a rede divulgou que a pesquisa tinha sido feita entre 26 de março e 4 de abril, do ano passado, para avaliar possíveis reduções no número de internações em pacientes com suspeita de infecção pelo coronavírus.

Em depoimento à CPI no mês passado, o diretor executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, negou que tenha havido testagem em massa e afirmou que o estudo era "observacional". Segundo o dirigente, os médicos da rede tinham autonomia para receitar os remédios, e os pacientes que receberam hidroxicloroquina e azitromicina foram acompanhados pela operadora.

O estudo acabou suspenso pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) em 20 de abril. O órgão descobriu que os testes com pacientes foram iniciados antes de a empresa receber o aval para a realização da pesquisa, o que é proibido pelas normas do País. Um grupo de médicos que denunciou irregularidades na operadora à CPI afirma que a rede ocultou mortes e revisou dados na pesquisa.

Os números do estudo foram citados pelo presidente Jair Bolsonaro, em 18 de abril do ano passado, em uma rede social, como prova da sua falsa tese de que as pessoas não precisavam fazer quarentena ou usar máscara porque a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina curaria a doença.

A versão é contestada pelos médicos que acusam a Prevent Senior de irregularidades. Os profissionais afirmam que não havia autonomia médica. Segundo eles, receitar os medicamentos era obrigatório, sob risco de demissão para quem não fizesse.

De acordo com o grupo, o "kit covid" era entregue, sem custo adicional aos associados, em um saco plástico nos consultórios da rede ou enviado à casa dos pacientes por meio de motoboys. Os médicos entregaram à CPI um vídeo que mostra diversos sacos plásticos adesivados e com a indicação: "kit medicamento, 8 comprimidos hidroxicloroquina 400mg + 5 comprimidos azitromicina 500mg".

A hidroxicloroquina é um medicamento indicado para doenças autoimunes, como artrite reumatóide e lúpus. A azitromicina é um antibiótico usado para tratar desde infecções sexualmente transmissíveis à pneumonia.

Pacientes registram reclamação sobre entrega de 'kit covid'

O site Reclame Aqui registrou reclamações de associados da Prevent Senior sobre entrega de "kit covid". Em novembro de 2020, uma mulher relatou ter ido a um pronto socorro da rede, em São Paulo. Ela afirmou que seus sintomas eram de sinusite, mas que o médico disse que "estava mais pra ser covid" mesmo sem ter feito um teste específico. "Já foi falando do coquetel que se eu quiser tomar fica a meu critério, que é um saquinho plástico que eles dão que já tem um estoque na sala, com os medicamentos azitromicina e cloroquina, entre outros, já separados para seus clientes."

Uma outra mulher registrou, no site, em março deste ano, que foi atendida por uma enfermeira na consulta virtual da Prevent Senior, que lhe "recomendou exame de covid". "Queria me enviar antibióticos e aqueles produtos (cloroquina etc ...). Fiquei chocada! Não aceitei, é claro, e a consulta acabou!", escreveu.

O epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Pedro Hallal, afirmou ao Estadão que "uma compra desse volume deixa claro que a prescrição (dos medicamentos) fazia parte da estratégia da empresa".

"O que eu lamento muito, porque esses recursos poderiam ter sido usados em estratégias que efetivamente são efetivas para prevenir a disseminação do vírus, como uma política de testagem mais ampla, como uma política de rastreamento de contatos, isolamento dos casos suspeitos e distribuição de máscaras para evitar o contágio", disse. "Mostra que a empresa adotou uma política equivocada para enfrentar a pandemia."

Na avaliação do médico epidemiologista Paulo Lotufo, da USP, a "história da autonomia" dos profissionais da rede "é uma falácia enorme". "O sucesso da Prevent Senior foi justamente porque o médico não tem autonomia para pedir qualquer tipo de exame. Tem que seguir vários protocolos, que não são ruins, são bons. O sucesso deles foi justamente não ter autonomia dos médicos", diz.

Bolsonaro é o maior influenciador da hidroxicloroquina, apontou estudo

A hidroxicloroquina teve Bolsonaro como seu maior incentivador. Como revelou o Estadão, o presidente é o maior influenciador digital da hidroxicloroquina e da cloroquina no Facebook. Em todo o mundo, nenhum usuário da plataforma provocou tanto engajamento ao citar o remédio. O resultado foi uma onda de desinformação sobre seu uso no tratamento de covid-19. As postagens que Bolsonaro publicou sobre o assunto geraram 11 milhões de interações e 1,7 milhão de compartilhamentos na rede social.

O uso do remédio é discutido desde o início da pandemia. Em 20 de março do ano passado, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou um informe no qual recomendava que a hidroxicloroquina, se usada, deveria ser em "estudo clínico aprovado" pela Conep ou, ao menos, "pelo Comitê de Ética do hospital, com termo de consentimento do paciente ou da família (paciente intubado)". "Contraindicamos seu uso para casos não críticos; tampouco como profilático", afirmou a entidade.

Um dia depois da SBI, foi a vez de a Associação Médica Brasileira (AMB) se manifestar. Em 21 de março, a entidade considerou que a aplicação de hidroxicloroquina e azitromicina no combate à covid, deveria "ser mantida em ambiente experimental" seguindo a legislação da Conep e dos demais órgãos reguladores da pesquisa médica no Brasil (ANVISA, CFM e Ministério da Saúde).

Em nota, a Prevent Senior apontou que "investiu R$ 250 milhões em equipamentos hospitalares e de proteção, medicamentos e pessoal na pandemia". A rede informou que "procurou comprar em escala, o quanto possível, para se prevenir de novas ondas da pandemia".

"Só em respiradores, R$ 20 milhões foram investidos na compra de 200 máquinas a mais. Os investimentos desmontam a tese de que houve preocupação com redução de custos no atendimento aos pacientes de covid e outras doenças. O esforço também incluiu máscaras e EPIs", diz a nota.





COMENTÁRIOS







VEJA TAMBÉM