SAÚDE

"Dificuldade em vacinar crianças pode prejudicar o controle da pandemia", diz infectologista
Índices de crianças que sequer receberam a primeira dose da imunização contra a covid-19 ultrapassam os 70% em alguns estados


Foto: Agência Mural

Crianças formam o público-alvo com os menores índices de imunização contra a covid-19 no Brasil atualmente. Os dados, do Ministério da Saúde, mostram que 41% dos meninos e 39% das meninas entre 5 e 9 anos não receberam sequer a primeira dose da vacina, que é ofertada desde janeiro para esta faixa etária.

As informações foram retiradas do banco de microdados do DataSUS*, do Ministério da Saúde, e processados por Marcelo Soares, do Lagom Data e também por Wesley Cota, pesquisador na Faculdade de Medicina da Unesp.

Roraima, por exemplo, é o estado com a maior defasagem vacinal conforme os dados: são 73% dos meninos e 72% das meninas de até 11 anos que não receberam sequer a primeira dose. Em seguida aparece Rondônia, com 71% dos meninos e 70% das meninas, e Mato Grosso, com 62% e 61%.

O que faz com que os mais jovens não estejam sendo vacinados?

Segundo a infectologista Valéria Paes, que atua no Hospital Sírio-Libanês de Brasília, o principal fator é a baixa sensação de risco para esses públicos pelos seus responsáveis. "Muitos têm a crença que as crianças não evoluem para a forma grave da doença", aponta.

Conforme divulgado pelo Ministério da Saúde, casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por covid-19 na faixa etária representam 0,34% do total registrado no Brasil de março de 2020 a dezembro de 2021.

A falta de incidência, porém, não significa que os casos não existam, reforça a especialista. "É uma proporção pequena, mas que pode acontecer, mesmo em crianças. Vimos casos de recém-nascidos na UTI com covid-19. Idosos e imunossuprimidos são fatores de risco, mas há fatores que ainda não são completamente conhecidos, que fazem com que esses casos evoluam de gravidade".

A infectologista também aponta que os pais e responsáveis são, muitas vezes, preocupados com possíveis efeitos colaterais da vacina contra a covid-19 nos mais jovens e que isso os afasta dos postos de saúde.

A preocupação não tem fundamentos, uma vez que já há estudos que apontam que reações adversas graves em crianças são raríssimos, com menos de 3% de incidência, como o publicado pelo Centro de Controle de Doenças (CDC), órgão governamental dos EUA, após a revisão de dados levantados da aplicação de 8,7 milhões de doses.

Esta pesquisa foi realizada com a análise da aplicação do imunizante da Pfizer, o mesmo autorizado pela Anvisa para aplicação no Brasil. A vacina é dada com intervalo de 8 semanas entre a primeira e a segunda dose.

Momento também desfavorece

O momento da pandemia em que as vacinas infantis foram autorizadas e começaram a ser aplicadas no Brasil, em janeiro deste ano, também desfavoreceu a procura pelo imunizante. "É um conjunto de fatores, mas o aspecto fundamental é a sensação de risco. Estamos vivendo um aumento de casos no momento, mas sem óbitos. Isso faz com que as pessoas sintam menos risco de pegar e se proteger da doença", aponta Valéria.

Em contrapartida, em 2021, quando o Brasil vivia um pico de óbitos pela doença, os índices de procura da vacinação por idosos, pessoas imunossuprimidas e outros integrantes do grupo de risco eram altos e satisfatórios para os especialistas em Saúde.

Ameaça ao controle da covid-19

Ainda conforme a infectologista Valéria, a evasão dos mais jovens à imunização pode prejudicar o controle da pandemia. "Porque a vacina reduz o risco de adoecimento, quebrando a cadeia de transmissão", justifica.

Uma alternativa para frear a falta de procura pelo imunizante às crianças seriam, então, estratégias mais específicas e direcionadas para os pais e responsáveis. "Identificando a lacuna nos dados, seria melhor que uma comunicação genérica e generalista", aponta.

"Todo pai quer o melhor para o seu filho, mas do outro lado temos cientistas cujo objetivo de vida é encontrar soluções para problemas que a humanidade enfrenta, como a covid-19", defende. Ela relembra, ainda, que o retorno às aulas presenciais e a chegada do inverno, época de doenças respiratórias no geral, é o momento em que as crianças podem ficar mais vulneráveis.

"Os pais devem se informar com as pessoas corretas e não tenham medo de algo que já foi testado, validado e está sendo acompanhado. O medo principal deve ser do adoecimento", finaliza.

* O Governo Federal não informa o perfil sociodemográfico ou socioeconômico do público não vacinado. O levantamento leva em conta, ainda, a projeção da população por faixa etária anunciada pelo IBGE em 2019, antes da pandemia de covid-19.




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