ECONOMIA

Por que o carro zero está tão caro?
Entenda a razão de os carros zero estarem com preços tão altos e se a situação vai melhorar


Preço do carro zero é influenciado por impostos e custos operacionais. (Fonte: Shutterstock/Reprodução)

Os carros populares mais baratos do Brasil custam cerca de R$ 60 mil. O valor assusta e não é à toa. Em 2009, o Fiat Uno Mille saía da concessionária por R$ 23.204, uma diferença grande, mesmo levando em conta aspectos como o aumento do salário-mínimo. Mas o que explica o encarecimento? Confira seis razões que impactam nesse cenário.

1. Impostos

Cada veículo que sai do pátio da concessionária deixa com o governo nada menos do que 31% do seu valor. Há quatro impostos em cena e três deles são tributos federais: o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (COFINS). O outro é estadual: o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

São justamente os impostos que ajudam a explicar por que os carros populares eram mais baratos. Em 1993, por exemplo, o governo baixou o IPI dos carros 1.0 para 0,1%. Isso estimulou a demanda e também a oferta, criando um nicho sólido do setor automobilístico, a exemplo do Uno, Palio, Corsa, Gol e outros "queridinhos" do brasileiro.

Hoje, os carros 1.0 têm 5,7% de IPI agregado ao seu valor. Poderia ser menor, mas, para Alexandre Chaia, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), desonerar a indústria não é uma solução mágica. "Mais do que o preço dos automóveis, o que pesa é a falta de renda da população. Por isso, o foco precisa estar em políticas de geração de emprego e crescimento econômico, para as pessoas terem capacidade de compra", diz.

2. Incorporação tecnológica

Um terceiro aspecto a se considerar são os itens de série. Se antes ar-condicionado, vidros elétricos e direção hidráulica ou mecânica eram opcionais, agora todos contam com esse tipo de conforto. Até mesmo Sistema de posicionamento global (GPS) ou câmbio automático, artigos de luxo nos anos 1990, têm entrado nos veículos populares.

Para Chaia, a incorporação tecnológica é uma tendência que deve se confirmar nos próximos anos. "Os carros apresentam mais tecnologia e são vendidos com itens mais sofisticados, o que mantém o preço elevado", argumenta. Dessa forma, não se deve esperar preços mais baixos, mas um serviço de mais qualidade embutido no valor.

É por isso que os modelos com mais valor agregado são priorizados pelas montadoras, ainda mais em um período de compressão da oferta de produtos em toda a cadeia produtiva do planeta.

Entra nessa conta também o fato de que alguns desses itens são fruto de um movimento de tornar os veículos mais seguros. No mundo, ocorrem aproximadamente 1,35 milhão de mortes no trânsito todos os anos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Esses sinistros compõem a principal causa de morte entre pessoas de 5 a 29 anos. E, se a vida não tem preço, os elementos de segurança têm, o que torna os carros mais caros.

3. Custos produtivos

Chaia acrescenta que os custos produtivos também aumentaram. Desde 2020, com a retração econômica causada pela pandemia, as commodities se tornaram mais escassas e, consequentemente, mais caras. Por isso, os veículos estão com o preço maior em todo o mundo.

"Os carros são diretamente afetados com isso, por conta do aço, do ferro, da energia, do cobre, da borracha e de outros insumos. Isso impacta a cadeia global de produção", comentou Chaia.

Há de se considerar também que a escassez de insumos é tão alta que, em alguns casos, faltam elementos básicos. Por conta disso, as montadoras preferem destiná-los aos veículos mais caros, como os veículos utilitários esportivos (SUVs), cujo mercado tem crescido graças a uma produção empurrada, ou seja, é a indústria que orienta a compra à medida que se produz mais artigos de um tipo e se encerra a produção de outros.

Além disso, para quem compra carro no Brasil, há ainda o impacto cambial. Com o real desvalorizado frente ao dólar, fica ainda mais caro comprar um carro novo.

4. Aumento na demanda

O Brasil vive um fenômeno paradoxal. Ao mesmo tempo em que a renda dos consumidores cai, há um aumento relativo na demanda por carros novos.

Isso ocorre por alguns fatores, segundo Chaia. O primeiro é que, desde que a covid-19 "deu as caras" no País, mais pessoas optam pelo transporte individual. Outro elemento importante é que a pandemia não pesa igualmente em todos os segmentos sociais.

"As classes A e B sofreram menos com a pandemia. Ainda existe um segmento importante da população que permanece com um bom poder de compra", afirma Chaia.

Em relação ao grupo C e D, também há demanda de veículos, mas ela se concentra sobretudo nos usados. Segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículo Automotores (Fenabrave), o montante de negócios com carros usados cresceu 30% de fevereiro para março. Isso ajuda a entender por que a tabela Fipe, que serve de referência para a comercialização de carros usados, tem preços mais altos.

5. Crédito mais caro

Outro fator que pesa na balança é o crédito estar mais caro em razão do aumento da taxa do Sistema Especial de Liquidação de Custódia (Selic), que está em 12,75% ao ano. No último dia 4 de maio, o Comitê de Política Monetária (Copom) fez o décimo ajuste consecutivo e ainda há margem para novas altas até o fim do ano.

Chaia aponta que os brasileiros têm menos poder de compra imediato e dependem mais de crédito para adquirir um veículo. "Os financiamentos ficam mais caros em razão da Selic e do risco de emprestar recursos a quem não tem poder de compra", diz.

Além disso, o crédito também está mais caro para toda a cadeia produtiva ligada ao setor automobilístico no País. Isso aumenta o Custo Brasil, deixa de gerar empregos e retroalimenta o efeito nocivo que há sobre a questão.

6. Expertise nacional

Se os carros não estão baratos, o cenário tende a ficar pior com a retração da indústria automobilística presente no País, que vem fechando plantas em regiões estratégicas para o setor. Exemplos disso são a Mercedes Benz, a Ford e, mais recentemente, a Chery, em Jacareí (SP).

Chaia avalia que a tendência de desindustrialização é mundial, mas o Brasil vem se localizando mal em relação a um ramo importante da economia nacional. As montadoras saem do País, que deixa de acompanhar a transformação dessa indústria.

"A Europa, sobretudo a Alemanha e a Inglaterra, tem liderado o setor à medida que criam soluções sustentáveis, como o modal elétrico. Investir nisso ajudaria o Brasil a se localizar entre os países com tecnologia agregada e vinculados a boas iniciativas ambientais", afirmou o professor.




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