EDUCAÇÃO

COVID-19 pode fazer a educação no Brasil regredir até 4 anos


Foto: Marcelo Lélis

A educação no Brasil, que há tempos nadava contra a maré do descaso tentando, a conta-gotas, avançar rumo à qualidade, recebeu um duro golpe desde 2020. A pandemia provocada pela COVID-19 não perdoou o atraso nem velhos problemas. Pelo contrário: os acentuou e aumentou o abismo dos níveis de ensino.

Os dados oficiais ainda não mostram as consequências do fechamento prolongado de escolas nem o saldo da ausência total de um modelo substituto de aulas em municípios onde não houve opção pelo ensino remoto – em Belo Horizonte, as salas de aula estão vazias há mais de um ano.

Mas estudos de instituições de renome já trazem a prévia de um desafio que, em território nacional, ficou ainda maior. Enquanto no mundo a média do atraso na educação é de três a nove meses, no Brasil, o retrocesso causado pelo contexto do coronavírus pode ser de até 4 anos.

É o que aponta estudo encomendado pela Fundação Lemann ao Centro de Aprendizagem em Avaliação e Resultados para o Brasil e a África Lusófona, vinculado à Fundação Getulio Vargas (FGV), para simular a perda de aprendizado que os estudantes podem ter sofrido com a pandemia.

O resultado mostra que, neste período, os alunos deixaram de aprender mais em matemática em comparação com língua portuguesa e, na maioria dos casos, os mais prejudicados são aqueles do ensino fundamental.

O levantamento foi feito a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). A simulação considerou aprendizado de estudantes nos anos finais do fundamental (5º ao 9º ano) e no ensino médio, em português e matemática, em três cenários.

No otimista, os alunos aprenderiam por meio do ensino remoto tanto quanto aprendem no presencial, desde que fizessem as atividades escolares. No intermediário, eles aprenderiam por meio do ensino remoto proporcionalmente às horas dedicadas a atividades escolares. E no pessimista, não aprenderiam com o ensino remoto. 

Pior cenário possível na educação

No pior cenário, os números apontam uma perda equivalente ao retorno ao desempenho brasileiro no Saeb de quatro anos atrás (entre os resultados de 2015 e 2017) em língua portuguesa e de três em matemática (2017), nos anos finais do ensino fundamental. No intermediário, a queda é equivalente ao Saeb de dois anos atrás (2017 e 2019) em ambos os componentes curriculares. Na melhor das situações, a proficiência ficaria estável ou com muito pouco crescimento em relação à edição de 2019.

A simulação mostra ainda que o número de horas dedicadas às atividades não presenciais pode fazer a diferença: no cenário intermediário (aprendizado proporcional às horas dedicadas a atividades escolares), estudantes dos anos finais do fundamental têm uma perda de 34%, enquanto os médio, de 33%. Na situação pessimista (nenhum aprendizado), ambos os ciclos perdem o equivalente a 72% no aprendizado.

“O principal fator que entra no cálculo do cenário pessimista é que muita gente não acessou ou conseguiu acessar (as aulas) com baixa qualidade. Isso pode significar aumento das desigualdades”, afirma o diretor de Políticas Educacionais da Fundação Lemann, Daniel de Bonis. “Não há dados em nível municipal, mas, no limite, diria que dentro de cada sala de aula haverá aumento da desigualdade, porque depende da condição de cada família”, completa. 

Tendência e simulações

O retrocesso preocupa. “A proficiência média dos alunos brasileiros vinha numa evolução lenta, mas constante. E essa tendência tem grande chance de se reverter, se estagnar ou ser pior ainda”, avalia o representantes da Fundação Lemann. Uma tendência que resta em cálculos e simulações, já que o principal raio-x da educação nacional, o Censo da Educação Básica, divulgado em janeiro, não revelou o real quadro de 2020.

O Instituto Nacional de Políticas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo material, mudou a data-base do levantamento no ano passado – da tradicional última quarta-feira do mês de maio, passou para 11 de março, imediatamente antes do fechamento das escolas. Com dados que não refletiram o que ocorreu no ano inicial da pandemia, o Inep não respondeu ao Estado de Minas sobre os questionamentos relativos à coleta e divulgação de dados do período escolar durante a pandemia.

Segundo Daniel de Bonis, mais do que nunca, o trabalho principal ao longo deste ano, independentemente da rede de ensino, deverá ter como foco a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que define os objetivos de aprendizagem no país.

“Ela é muito importante para fazer o planejamento sobre o que ficou para trás, o que priorizar no momento e o que retomar mais para a frente. O primeiro ponto a ter em mente é que não se esgota em 2021. Retomada, planejamento e  priorização deverão se alongar por alguns anos. O segundo ponto para as escolas é se atualizar em termos do que ocorreu com cada aluno: em uma mesma sala, haverá diferença daqueles que tiveram ajuda dos pais ou outros meios”, ressalta o diretor da Fundação Lemann.

Um bilhão de alunos fora das salas de aula

O estudo do Centro de Aprendizagem em Avaliação e Resultados para o Brasil e a África Lusófona levou em consideração, para chegar aos resultados que projetam os efeitos da pandemia sobre o ensino, o nível de aprendizado em um ano típico (usando dados do Saeb de 2015 a 2019), o tempo de interrupção das aulas (estimado em 72% do ano letivo) e o eventual aprendizado com o ensino remoto (explorado nos cenários otimista, intermediário e pessimista).

A metodologia foi baseada no estudo do Banco Mundial “Simulating the potential impacts of COVID-19 school closures on schooling and learning outcome: a set of global estimates” (“Simulando os potenciais impactos do fechamento das escolas pela COVID-19 na educação e nos resultados de aprendizagem: um conjunto de estimativas globais”, em tradução livre).

O relatório do Banco Mundial mostra que o fechamento das salas de aula deixou mais de 1 bilhão de estudantes fora das escolas. Os resultados da simulação consideraram os períodos de três, cinco e sete meses de fechamento e diferentes níveis de mitigação em cenários otimista, intermediário e pessimista. Usando dados de 157 países, a análise conclui que o nível global de escolaridade cairá e que a COVID-19 resulta na perda de qualidade equivalente à de três a nove meses. 

O diretor de políticas educacionais da Fundação Lemann, Daniel de Bonis, pondera que as metodologias do levantamento internacional e a usada pelo estudo brasileiro não são necessariamente compatíveis ou idênticas, pelo fato de a Fundação Getulio Vargas ter trabalhado com o ritmo de crescimento do Saeb. “Na comparação com o resto do mundo, o Brasil talvez seja um dos países que estão há mais tempo com escolas fechadas. Outro fator são desigualdades que já existiam e que a pandemia aprofundou, por exemplo, no tocante à conectividade e à escolaridade dos pais”, ressalta. 

Há um impacto maior se comparado com outros países e, nesse sentido, o Brasil fica em posição desfavorável – uma provocação a mais para atacar o problema com muita intensidade, de acordo com o diretor. “Não podemos deixar uma geração para trás num século que é o do conhecimento. Precisamos de um grande compromisso nacional. Desigualdades, defasagens e tantos outros problemas já eram grandes e se aprofundaram. Quem sabe seja essa a oportunidade de enfrentar alguns desses problemas?”


 




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