DIVERSÃO

Up deixa de ser produzido pela Volks (sem choro nem vela)
Análise: Volkswagen Up sai de linha e expõe uma história de fracasso, embora o carro fosse tecnicamente elogiável

O Volkswagen Up saiu de linha. O hatch subcompacto de 3,6 m não consta mais do catálogo da Volkswagen do Brasil, que confirmou o fim de sua produção na fábrica de Taubaté (SP). Lançado em 2014 para ser o substituto do Gol G4 como carro de entrada da Volks, o Up ganhou muitos fãs por suas qualidades técnicas, mas não o suficiente para mantê-lo vivo no mercado. 

O Up sai de linha com apenas 1.839 unidades vendidas no primeiro trimestre, o que lhe dá o 52º lugar no ranking geral. Seu principal concorrente, o Fiat Mobi, está em 6º lugar com 17.524 emplacamentos. Desde dezembro, o Volkswagen Up estava sendo vendido em versão única e numa configuração bizarra: para quatro passageiros, com um aviso no meio do banco traseiro para que o local não fosse utilizado por nenhum passageiro. O cinto de segurança do quinto passageiro foi eliminado da linha 2021.

A morte do Up mostra o fracasso na estratégia do carro. Estava sendo vendido em configuração única, Extreme, por R$ 60.090. Vinha bem equipado, mas sem multimídia. O motor 1.0 TSI de três cilindros, flex, era seu grande trunfo. Turbo alimentado e com injeção direta de combustível, ele entregava 101 cv com gasolina e 105 cv com etanol. Para o peso do Up, era suficiente para dar ao carro um desempenho de carro 1.8 aspirado. Quando foi lançado, entretanto, o Up trouxe enorme quantidade de versões.

No lançamento, o Up estreou com o motor 1.0 aspirado de três cilindros com 75/82 cv. De cara, ele conseguiu cinco estrelas no teste de impacto do Latin NCAP. Segundo o fabricante, “o Up é um marco para o desenvolvimento de veículos da Volkswagen, em termos de segurança e performance”. Para a Volks, aliás, o nome do carro é “up!”, em letras minúsculas e com exclamação. O nome das versões vinha antes do nome do carro, o que confundiu o público.

Então, versões como “take up!”, “high up!” e “move up!” eram oferecidos a um público bastante conservador e acostumado com nomes mais simples. Para piorar, as versões “high up!”, “red up!”, “white up!” e “black up!” eram exatamente iguais. Mudavam a cor e o nome. O carro era para cinco pessoas, mas toda a publicidade do veículo foi feita mostrando apenas quatro adultos a bordo. Quando chegou o motor 1.0 TSI, o Up chegou a ter 13 versões. Uma delas era a “cross up!”, que lembrava o nome de pasta dental (Close-up).

Em nota enviada para a revista Autoesporte, o fabricante disse que o fim da produção do Up “segue a estratégia de renovação do portfólio da Volkswagen, que passa pela maior ofensiva de produtos da sua história no país”. Na Alemanha, o Up continua sendo produzido e também tem várias versões, porém com com variedade de motorização. Além das versões normais, há uma versão elétrica (“e-up!”) e uma versão com propulsão a gás natural (“eco up!”). 

O Up nacional foi pensado para um Brasil que não existiu. O projeto surgiu no início do governo Dilma Rousseff, quando a venda de carros estava em torno de 3 milhões/ano. No segundo e terceiro ano do Up, entretanto, as vendas anuais haviam caído para 2,1 milhões e 1,7 milhão. O paradigma do carro era alemão e o presidente da empresa era alemão. Até o slogan da Volkswagen era alemão: “Das Auto” (O Carro). No auge da crise, um engenheiro alemão foi enviado para melhorar a comunicação do Up, enfatizando suas qualidades técnicas. Não funcionou. O Up sempre foi caro para o bolso do brasileiro.

Para além do preço pouco atraente, o Volkswagen Up fracassou na tentativa de oferecer um interior minimalista. O painel e as portas, por exemplo, tinham a “lataria” aparente, pintadas na cor do carro. Era para ser visto como um carro “descolado”, moderno, despojado e prático. Mas muitos consumidores o viram como um carro mal-acabado. A Volks tentou corrigir isso, introduzindo estofamento no painel e nas portas, mas não adiantou.

O Up sofreu também por ser um carro melhor do que seus concorrentes. Por trazer mais tecnologia e melhores materiais do que o Fiat Mobi e o Renault Kwid, o Volkswagen Up foi injustamente comparado em preço com esses carros. Mesmo no caso do Mobi, devido à crise de 2015 e 2016, a Fiat só passou a vendê-lo bem depois de reduzir os preços. Não apenas isso: também desistiu de deixar o carro equipado com o melhor motor que tinha, o 1.0 Firefly de 3 cilindros. 

Dentro da Volkswagen do Brasil, o Up é visto como um carro que cumpriu uma função “social”: a de abrir caminho para a atual gama de veículos 1.0 de 3 cilindros. Pode ser. O Up também pagou o preço ter sido cobaia de vários experimentos de marketing da marca -- ora posicionado como veículo aspiracional, ora como veículo de entrada, ora como veículo exclusivo. Seria muito mais caro e arriscado fazer testes com modelos mais caros. 

Com mais de 300 mil unidades produzidas desde fevereiro de 2014, o Up levou sete anos para conseguir o volume que seu sucessor, o Gol G4, fazia em apenas um ano. Fabricado na plataforma PQ12, que dará lugar à MQB do substituto do Gol (ou novo Gol; não se sabe), o Up foi condenado a uma vida curta. Seu designer, o brasileiro Marco Antonio Pavone, quis fazer um carro de formas simples, como o Fusca, que qualquer pessoa fosse capaz de desenhar. Infelizmente, o público brasileiro não comprou a ideia e o Up se despede. Sem choro nem vela.                 





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